Os tais projetos para o ano novo
Por Paulo Rezende.
Sou mestre neles, e veterano em alguns. Parar de fumar, por exemplo: venho decidindo isso para o próximo ano há, no mínimo, vinte reveillons. Beber menos? Mais ou menos este mesmo tanto de passagens de ano. Guardar dinheiro? Esse é mais recente, depois que passei dos 45, mas em termos de inutilidade se iguala aos seus irmãos mais velhos.
De forma que, neste 27 de dezembro, segunda, estava eu, sobrevivido à festança natalina, meditando sobre o futuro. De cigarro na mão – são os últimos, tenho só mais quatro dias de tabagismo pela frente, se dessa vez criar vergonha – sentado no portão de casa, olhava a rua vazia. O que, meu Deus, poderei fazer de marcante, de definitivo, em 2011?
De repente, chega um casal numa moto velha, com uma carrocinha atrelada. Eu já tinha visto os dois antes, passando pelo bairro.
Desceram, respeitosos.
- Bom dia!
- Bom dia, eu disse, tudo bem com vocês?
- Sim, senhor, e como foi de Natal?
- Ah, bem graças a Deus!
- É, a gente notou, passamos aqui bem cedinho, recolhemos as latinhas...
Aí, o marido calou, a mulher olhou pra ele, encorajando...
- Olha, é o seguinte. A gente tá meio sem jeito, mas é que eu e a Judite queria dar um presente pro senhor...
O quê? Que negócio era aquele?
- Uai, gente, mas por quê?
- É o seguinte: toda segunda-feira a gente passa por aqui, catando material reciclável, e a casa do senhor é a única que nunca falha.
- Como assim?
- Bem – a Judite entrou no meio – é que a gente faz um controle do que recolhe, direitinho. Já até fomos no Sebrae, pegamos umas informações, o moço imprimiu uma planilha, que a gente não tem computador ainda. Então, a gente anota tudo ali, certinho, no final do dia.
- E funciona?
- Ah, funciona. A gente agora sabe que em algumas ruas pode passar mais tarde, que o pessoal demora a colocar o material pra fora. Em outras, nem precisa passar: quase nunca tem nada reciclável.
- Ah, mas aqui, na sua casa, sô... sô... Como é mesmo o nome do senhor? Pois é, sô Paulo, aqui a gente passa logo cedo, porque sempre tem, e logo de manhãzinha, né?
- É, eu mesmo que coloco...
(Sim, não abro mão disso: pego um saquinho de plástico, onde já está a maioria das latinhas vazinhas, e saio juntando outras, que escondi pelos cantos depois de esvaziar. Nunca mais deixei tudo junto depois que uma tia minha (que adotou a gente e um apartamento nos fundos), cismou, num domingo à tarde, de contar, uma por uma. Foi um escândalo. Aí, agora só recolho todas na hora de jogar fora, e bem cedinho, antes que a família acorde.)
-
Pois é, sô Paulo, então, em agradecimento a este tanto de segunda-feira boa que o senhor deu pra gente, trouxemos este vinhozinho de lembrança.
Eu ainda estava sentado, levantei emocionado, sem jeito...
- Ô gente, precisava não...
- Precisava sim, sô Paulo, a gente não esquece de quem se lembra da gente. E agora dá licença que vamos indo...
- Esperem aí, não aceitam um cafezinho?
- Não, obrigado, precisamos rodar mais, aproveitar: tem gente que não é igual ao senhor, e só bebe no Natal.
Lá foram os dois na moto, a carrocinha cheia... De longe, Judite ainda gritou:
- Fica com Deus, sô Paulo.
Em seguida, completou:
- E que Nossa Senhora proteja seu fígado!
Sem ironia nenhuma, acreditem ou não.
Entrei, sentei na mesa, a garrafa de vinho na frente, meditei sobre os desígnios do Senhor... Que coisa, meu Deus! Garrafinha simples, vinho barato, mas nenhuma mostra de que tivesse sido “recolhida” pelos dois...
Minha tia acordou, chegou na cozinha e se interessou:
- Uai, bebendo já uma hora dessas? E desse vinho aí?
Nem respondi. Estava em êxtase. Tinha acabado de tomar uma decisão para 2011. Mesmo que de porre, essa eu respeit
arei. Agora sei que, pra cada latinha que eu beber, alguns centavos irão parar no bolso da Judite e do marido. É muita responsabilidade. Que casal empreendedor! Não posso decepciona-los, ainda mais depois desta garrafinha.
- Tia, eu nunca terei coragem de abrir essa garrafa!
- Nem eu, credo, ela disse com um muxoxo.
Não era disso que eu estava falando. Mas não perdi tempo explicando. Pra mim, essa garrafa significa um compromisso. É a personificação do meu projeto de ano novo.
Juro que vou continuar bebendo em 2011, e mais, se puder!
Que Nossa Senhora ouça os votos da Judite...
PS.: o que Judite e o marido (qual o nome dele? descubro no dia 27 de dezembro do ano que vem) não sabem é sobre a quantidade de garrafas vazias de Poesia que tenho guardadas lá no fundo. Não sei se vidro é tão caro quanto alumínio, mas, olha, pelo tanto de garrafa, é uma pequena fortuna. Não tenho coragem de jogar fora...
Não chego a anotar no rótulo quanto durou cada uma, mas só de olhar pra algumas tenho lembranças especiais. Até agora, defendi a integridade delas falando que vou usar pra colocar pimenta no azeite. Mas se este argumento fraquejar... “Deixa aí, gente, vou deixar de herança pra Judite e pro marido!” Mas só entreguem depois de eu morto!

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