Peru à cachaça

Por Paulo Rezende.

Peru Bêbado

Ante-véspera de natal, quatro e meia da tarde, meu tio sentado na coberta do quintal despejava, goela abaixo de um peru, uns golinhos de cachaça. Dali a pouco o bicho iria pra faca, pra passar umas horas no tempero e depois enfrentar forno e fome da família. Família respeitável: além de vovô, vovó e seus dez filhos, uma cambada de sobrinhos e netos. Ou seja, o peru tinha que ser grande. E aquele era, engordado por meses, o mais vistoso do bando.

 

Meu tio, Parreirinha, pra não deixar o peru beber sozinho, dava também suas bicadas. O fígado do bicho estava em melhor condições. Parreirinha ficou alegre primeiro, começou a cantar caipiragens e modinhas. Meia hora e quase meio litro depois, o peru começou a glugluzar junto. Juntou gente, um monte gargalhando enquanto alguém mantinha a vovó dentro de casa, pra não acabar com a festa.

Parreirinha garantiu que além de cantar o bicho dava uns passinhos de catira. Levantou meio torto, passou o braço pelo pescoço do companheiro e cambalearam juntos. Gargalhadas redobradas, vivas, cantoria... Caíram os dois, claro, pouco depois. Por azar, o peru aparou com o pescoço os joelhos do Parreirinha. Morte instantânea, justo no instante em que vovó saía na porta da cozinha pra ver o motivo daquela zoeira toda.

 

Parreira, arrasado, gritou “Tadinho, gente, traz uma vela!”, enquanto tentava acender seu isqueiro, daqueles a querosene, “Ô, coitado, que foi que fiz?”

 

- O que você fez? O que você fez? Só estragou o melhor peru que eu tinha!, gritou minha avó.

Segundo ela, aquele ali não servia mais pra assar, sem sangrar a carne endurecia.

 

- Já pro quarto, vai deitar e não bebe mais hoje!

 

Peru desconfiadoMaristela, a tia mais animada, bagunceira como os irmãos, sugeriu: fizessem aquele cozido na panela, então, e pegassem um outro, mesmo menor, pra assar.

 

Levaram o corpo pra ser depenado na cozinha, e outro peru entrou na roda. Não podia faltar a cachaça, claro. Só que, com todo respeito, a encomendação dos perus já tinha virado uma celebração. E resolveram que, em vez da ótima cachaça do alambique da família, que por acaso – juro – levava o nome do caçula nas garrafas, iam dar era uma outra qualquer pro bicho.

 

- Traz aquela do compadre Mardoqueu, lá do Mata-Porco!, comandou meu avô, recém-chegado da fazenda.

 

- Ih, pai, mas aquela? Aquilo é álcool puro. Coitado do peru...

 

Todo mundo já meio tonto com a santa cachacinha de casa, uns resolveram ser solidários. Iam passar de mão em mão a meia garrafa do compadre, cada um mandava uma talagada, o que sobrasse era do peru.

Vovô concordou, deu a primeira, gemeu, cuspiu, passou a garrafa pra frente... Quando chegou no último da fila, um primo meu já de bigode e liberado pra umas e outras, ele levou a garrafa na boca e depois despejou o resto na goela do peru. Que resto! A maioria da roda tinha fingido que bebia, e o pior ficou pro coitado. Demorou a descer, bem um terço de litro.

 

Acabada a overdose, soltaram o peru. Ele pareceu soluçar, bateu as asas, esticou o pescoço, botou a língua pra fora... Olhou prum lado, olhou pro outro – olhos vermelhos, o cão! – e saiu correndo no rumo do tanquinho. Antes de conseguir beber água, capotou e entrou em convulsão. As asas imensas varriam o chão e jogavam poeira pra todo lado. Esperneava e rodava como macumbeiro encaboclado. Correria, confusão, minhas tias apanhando as roupas no varal vizinho (“o lençol alvejado, mamãe mata um hoje!”), ninguém da roda macho o suficiente pra parar o bicho. Um primo meu, mais ou menos da minha idade, pulou em cima dele. Tanta coragem me deu uma inveja terrível, mas por pouco tempo. Ditinho levou uma pernada que o mandou longe, rolando, unhado no peito e esfolado nas costas. Alguém buscou uma enxada, outro sugeriu um machado, enquanto o peru endemoniado pulava e berrava terreiro afora. Quem resolveu o problema foi quem tinha começado, ainda no primeiro peru. Parreirinha escapou do quarto, avançou roda afora, deu uma beiçada num coité no caminho, agarrou o peru pela cabeça, levantou e tacou no pescoço do bicho o canivetinho de picar fumo.

 

Nem lembro se alguém comeu peru naquela ceia. Mas deste dia ficaram duas tradições na família. A primeira, diária, jogar fora, sem abrir, toda e qualquer garrafa do compadre Mardoqueu que aparecesse em casa. A segunda, natalina, dar bastante cachaça pro meu tio, antes de cuidar do peru...

 

PS.: Infelizmente, não cheguei a provar da cachacinha do alambique da família materna. Vovô parou a fabricação da Parreirinha antes do meu bigode ganhar os pelos necessários para o primeiro gole. Mas quando tomo meio copinho da Poesia, bem devagar, penso que ela deveria ser parecida: gente de casa, capaz de só trazer boas histórias. Como, aliás, as do livro Prosa e Poesia: para ler e degustar. Se gostou desta crônica, compre o livro...

 

No ano seguinte...

 

Perus a salvo

 

 


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