Poetando em Paraty - 2
por Paulo Rezende.
A Flip é o paraíso dos poetas (cachaceiros ou não). A programação oficial em si é meio metida a besta. Descobrem uns gringos de quem gente normal da área nunca ouviu falar, e sobre os quais nunca mais ouviremos, a não ser que voltem a Paraty. Mas o que rola em volta é demais: oficinas, palestras, papo, mais papo, muito papo.
À noite a programação dá um tempo, mas a Poesia não. Principalmente no Bar do Escritor, que estreou este ano a poucos passos do “templo” principal da Flip. Tirando o banner da Poesia, colocado estrategicamente na frente, parece um bar normal de praia. Você nem dá muita coisa por ele. Mas só juntou gente boa nos dias da festa.
De cara, na primeira tarde que passei por lá pra conhecer a turma, tinha uma equipe da TV Brasil, fazendo uma matéria sobre os autores. É, o Bar do Escritor é uma comunidade iniciada na internet, que hoje tem milhares de seguidores Brasil afora. Tudo gente chegada a letras. Este ano resolveram marcar um encontro em Paraty, e criaram o Bar lá. O Anselmo, o alquimista que transforma cana em poesia, apostou na idéia, e bancou patrocínio. Mandou pra lá também umas garrafas, além dos livros. Coitadas das garrafinhas: ninguém cansava de passar a mão nelas, virar de um lado pro outro... Igual àquelas primas taradas, lembra?
Mas acabada a reportagem da equipe da TV Brasil, o pessoal sentou numa mesa e foi apresentado à Poesia. Dúvidas iniciais: “vai você primeiro”, “não, você”, “prometi à mamãe que não beberia mais cachaça”, e por aí afora. Dado o primeiro golinho, virou disputa: “opa, esse é meu”, “ei, não toma tudo não”, “dessa, mamãe aprova”... O pessoal só foi embora porque tinha uma entrada ao vivo mais tarde.
Passei na entrada da tenda principal enquanto eles se preparavam para o jornal. Todo mundo firme, profissional (mesmo porque cachaça boa não deixa dar problemas). Comentei com a repórter que os olhos estavam lindos, bem mais brilhantes que à tarde: “Maquiagem, querido, maquiagem!”
Acabou o jornal, guardaram o equipamento, e dali a pouco, ó os jornalistas no Bar do Escritor. Gente de casa, já. Copinhos de Poesia em cima da mesa, e um bom estoque no hotel.
Fiquei pouco, que não estava ali só como autor “homenageado”, graças ao Anselmo (veja ao lado a foto do livro da Poesia, ao lado das outras publicações da turma do Bar): no outro dia tinha uma porção de palestras, oficinas, entrevistas...
Subi a pé para a pousada, a uns dois quilômetros de distância. A única que consegui. Um quartinho minúsculo, um beliche, um banheiro e uma surpresa para a noite: uns quatrocentos pernilongos que esperaram só apagar a luz para ferver em cima de mim. Passei a noite entre gemidos e chupadas: nhém pra lá, nhém pra cá, tapa, cobre a cabeça, sufoca, descobre, tapa, porrada...
De manhã, quando me levantei, ainda consegui matar uns três ou quatro. Mas levaram vantagem, porque eu estava meio grogue de sono. Sentado na cama, vi uma longa fila deles escapando pela janela do banheiro: torci para que na próxima noite procurassem sangue estrangeiro, e me deixassem em paz.
Continua...
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