Uma dose de “Poesia”
Por Paulo Rezende,
terça-feira, 26 de maio de 2009, 12:24
Quem já bebeu, sabe: tem cachaça pra toda ocasião. Como naquelas em que é preciso ter uma postura clara: “Atitude” ou “Decisão”, por exemplo. Adoraria manter uma garrafa de uma destas por perto, pra quando minha mãe me cobrasse, “meu filho, você precisa tomar uma decisão!”. “Mas a uma hora dessas, mãe?”, “você já é homem, tem coisa que não pode esperar!”, “tá bom, mãe, onde está o coitezinho?”.
Tem aquela para os solitários e marginalizados: “Amansa corno”, neste caso, é a degradação máxima, o cara tem que ser o maior conquistador da cidade pra poder pedir uma dose em voz alta. “Ô, Zé, me vê dois dedos aí da ‘Amansa corno’!”, pede o felizardo no balcão, enquanto tem um monte querendo experimentar mas sem coragem de pedir. Imagina o zezinho, casado com aquela mulatona linda, pedindo uma dessas...
Sempre vai ter um filho da mãe comentando: “é a marca certa pra ele!”. Nestas coisas de corno, não interessa a realidade, mas o que metem na cabeça da gente...
E as francamente de, digamos, mau gosto? “Nab***a”! (Deixo a troca de asteriscos e as frases possíveis a critério de suas opções, caros leitores.) Nem sei se existe mesmo, mas já rendeu boas histórias. Numa mesa com a marca adolescente de várias garrafas, um amigo, macho indubitável (pelo menos até onde soubemos) e gozador insuperável de si mesmo (mas sem nenhuma paciência prás gozeiras dos outros), lascou a piada: “nunca mais fui o mesmo depois que tomei “Nab***a”!” Três caras de fora que passavam resolveram endossar as nossas risadas. O amigo levantou, putíssimo, e partiu prá porrada. Bateu muito, apanhou mais, depois do deixa disso encheu um copo e bochechou, pra lavar o sangue e realinhar um dente fora do lugar. Nós outros da mesa continuamos sentados: macho que é macho resolve estas dúvidas por conta própria.
Mas, histórias e besteiras à parte, acabei de descobrir a cachaça ideal pra quem gosta de uns versos. “Poesia”, naturalmente, o nome dela. Achei no Google, no site da Revista Fator. A “Poesia” é fabricada em Munhoz, Minas (Minas, sempre Minas, terra de alguma das melhores e da rainha eterna, Havana – tem até de 3.000 reais a garrafa, pra colecionador). Corro no Google (mapas, agora), e vejo que Munhoz está no sul mineiro, bem longe da Salinas do norte, tão pródiga em boas aguardentes. O fato de estar perto de São Paulo talvez explique a bela visão de marketing dos fabricantes, que resolveram criar uma embalagem fantástica prá pinga: uma caixa em forma de livro.
O melhor de tudo: já vem com dois copinhos. Se eu ainda fosse um apreciador, adoraria ter um livro destes na estante daqui de casa. Não só pra beber, mas pra gerar uns diálogos a la Ionesco (vá lá, um Ionesco meio tonto e só um pouco absurdo): “Seu pai? Tá lá no escritório, não larga aquela poesia dele!” / “Você não acha muito cedo pra poesia?” / “Se você não parar com essa poesia não dou mais pra você!” / “Essa poesia vai acabar te matando!” / “Acredita? O doutor Sirinho me proibiu de continuar com a poesia!”. / “Ih, mãe, o pai dormiu de novo em cima daquele livro de poesia!”. Encerrando, antes que me dêem uma garrafada, tem aquela do poeta medíocre e amargurado, discursando, dramático, depois de derramar um cálice sobre seus escritos: “Agora, ninguém pode negar que meus versos estão encharcados de poesia!”.
Mamãe, com sua santa e doce racionalidade, acaba de passar por aqui, pra me chamar pro almoço (ó a hora, quase meio dia e meia) e encerrar a escrita: “O que tem de poético no bafo de cachaça? Ah, e nem pense em aproveitar a oportunidade e tomar uma pra abrir o apetite. Coloquei na pimenta aquele resto da “Faísca” que seu amigo de Montes Claros mandou!” Ah, as mães. Ainda tentei ponderar o que os bons bebedores sabem, que “Poesia” e outras igualmente bem feitas não deixam bafo, mas mamãe já estava na cozinha. E deixa eu ir lá que o cheirinho de jiló refogado me tira do sério.
Ah, uma última coisa: o link em que achei a reportagem sobre a Poesia está aqui,
e o site das fabricantes é este. Cuidado, eles vendem on line!!!
Mãe, mãe, peraí! Guarda uma costelinha pra mim, já tô indo. Ô, mãe...

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